A obra resulta de uma psicanálise retardada a uma relação que o escritor – na altura psicólogo clínico – manteve com um moribundo votado a uma maca de hospital: um velho agreste e violento, inveterado apalpador de rabos de enfermeiras, embora ao mesmo tempo filosófico e senhor de desafiantes derivas mentais.
É uma obra catártica que Urbano Tavares Rodrigues não hesitou em classificar de “mergulho nas vísceras do ser humano”, por questionar, de uma forma quase cortante e não raro no fio da navalha, o que andamos afinal nós todos aqui a fazer, o que vale verdadeiramente a pena e o que não vale coisa absolutamente nenhuma.
São novos horizontes que se abrem sobre o remorso humano, o desejo ardente que envelhece e as aspirações dolorosamente não concretizadas da existência humana.
“Que fez afinal do seu tempo?, e há um fel que lhe vem à boca, mais azedo que vinagre misturado com sangue de gasnete de galinha, a crista a apontar para o cemitério, o rabo para uma fotografia macumbada, Que fiz afinal do meu tempo?, e chovem lá fora trovoadas, faz um frio de sol, Que fiz afinal do meu tempo?, e vem-lhe à boca um gosto de arrependimento que mais parece um composto dos piores sabores da terra, dos piores sabores do mar, dos sabores da tumba.”